Estreou, em 5 de fevereiro, mais um filme brasileiro custeado com nossos impostos: “High School Musical”! Não é uma franquia da Disney, como pode parecer à primeira vista, é um filme brasileiro! Cadastrado na Ancine sob o número Salic 080598
Valério Benfica
Há algum tempo não ocupávamos o espaço do HP para comentar as barbaridades cometidas pela Ancine (Agência Nacional de Cinema). Como não é do nosso interesse expor fragilidades do governo Lula num ano eleitoral, temos evitado o tema. No entanto, é impossível deixar de comentar dois fatos recentes: um encontro da classe onde foi discutida a cota de tela e o lançamento de um filme nacional.
Primeiro o encontro. Nele palestrou o presidente da Ancine. Em síntese, afirmou que o número de dias reservados ao cinema brasileiro – cota de tela - era mais do que suficiente, tanto que “era a primeira vez” que ele escutava reclamações sobre isso.
Do alto de seus três curtas-metragens, em duas décadas de carreira, afirmou que o problema está nos realizadores. Ele mesmo teria aprendido, a duras penas, que o cinema nacional é que não conseguia se comunicar com o público, por isso ficava restrito à meia dúzia de salas. Mas, benévolo como ele só, anunciou que a Ancine havia aberto uma consulta pública sobre a Cota de Tela.
Resultado: a cota para 2010 será exatamente a mesma de 2009 (e 2008, 2007, 2006...).
Ou seja, a tal consulta era pura embromação. Abre-se um espaço para ouvir a todos, e não se ouve ninguém. Alega-se a inutilidade de reservar mais do que 28 dias do ano para o cinema brasileiro, sob o argumento de que ele não está conseguindo sequer ocupar o espaço reservado. Garante-se 337 dias para o cinema estrangeiro (essencialmente o estadunidense). E, para finalizar, a culpa é jogada sobre os artistas brasileiros, como se o caminhão de bobagens produzidas por “róliudi” fosse mais capaz de sintonizar-se com o povo brasileiro do que o trabalho de nossos cineastas.
Agora o filme. Estreou, em 5 de fevereiro, com 160 cópias, mais um filme brasileiro, custeado com os nossos impostos: “High School Musical”! Não, leitor, o autor não se confundiu e nem consumiu nada ilícito. Não é uma franquia da Disney, é um filme brasileiro! Cadastrado na Ancine sob o número Salic 080598, e supostamente produzido pela Total Entertainment (a mesma daquele filme em que marido vira esposa e vice-versa, um mal disfarçado plágio de “Um espírito baixou em mim” (1984), estrelado por Steve Martin, que já comentamos aqui). A Disney é “apenas” a distribuidora... É verdade que o pessoal da Total ficou meio envergonhado com o papel de testas-de-ferro, tanto é que omitem a sensacional obra de seu portfólio que consta na internet. Mas a Disney entrega o jogo.
Apresentaram um orçamento de R$ 6,8 milhões e conseguiram captar a metade, R$ 3,4 milhões. A fonte dos recursos? O nosso bolso é claro! R$ 3 milhões provavelmente abatidos do imposto sobre remessa de lucros da Disney, já que foram captados pelo artigo 3º da Lei do Audiovisual e pelo artigo 39 da Condecine – ambos criados para que as múltis possam ingressar na produção de filmes “brasileiros” e ocupar mais espaço nos cinemas do país. O troco (R$ 400 mil) foi via artigo 1º da Lei do Audiovisual (patrocínio das também multinacionais Nokia e C&A).
O leitor atento já se deu conta da relação entre os dois fatos. Mas vamos juntar as pontas: talvez aque le rapaz guindado à direção da Ancine não tenha dito que a cota de tela é suficiente por ser mal intencionado, mas apenas por ser mal informado.
Durante anos, as majors do cinema aproveitaram o espaço dado a elas para consolidar o seu domínio. Desde o fim da Embrafilme, no governo Collor, as sucessivas gestões da cultura têm, no máximo, adotado paliativos para a indústria cinematográfica nacional. Quando a grita dos realizadores está muito alta, liberam um edital, um concurso, coisas assim. Financiaram a produção, mas nunca se dispuseram a enfrentar a falácia neoliberal e entregaram ao mercado – ou seja, às majors americanas - a tarefa de resolver a questão da distribuição. Como as mesmas majors que dominam a produção internacional também dominam a distribuição e a exibição, os filmes brasileiros – sem aspas - vão para a prateleira, ao invés de irem para as telas.
Mas esse pessoal é muito fominha. Acharam que 90% de ocupação do mercado nacional era pouco. E, aproveitando a conivência de certas autoridades, resolveram ocupar também os 10% da cota de tela. Começaram pegando filmes para distribuir. Não se saciaram. Exigiram que seus “gastos” fossem abatidos do imposto. Não se deram por satisfeitos. Começaram a escolher quais filmes seriam feitos. Ainda não bastava. Agora começam a fazer filmes exatamente iguais – até no título em inglês – aos que produzem nos EUA. E com o nosso dinheiro! Deu para entender? Se não deu, cuidado: o próximo passo deles vai ser clonar o falecido Jack Valenti para nomeá-lo presidente da Ancine.
· Presidente do CPC UMES-SP
Fonte: Jornal Hora do Povo Edição 2843